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AboFlah transformou a vida em transmissão ao vivo, mas quer que os filhos vivam longe das telas

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O criador de conteúdo Hassan Suleiman, conhecido nas redes como AboFlah, mantém o olhar fixo na câmera. É um reflexo inevitável para quem acumulou 50 milhões de inscritos no YouTube e passou a maior parte da existência transmitindo a própria rotina. Enquanto muita gente enxerga uma lente como algo intimidador, ele a descreve como algo familiar — quase mais acolhedor do que evitá-la.

A conversa aconteceu no estúdio da 8Flamez, empresa que cofundou ao lado de Eyad Siyam e Saad Sarwar para gerenciar criadores e construir infraestrutura voltada à economia dos influenciadores. O espaço é amplo, com paredes claras, e está sempre pronto para gravar. Suleiman chegou no horário, ainda que ligeiramente incomodado por ter perdido um compromisso mais cedo — não é de faltar a reuniões, e seu e-mail, como ficou comprovado depois, tinha apenas 17 mensagens não lidas.

No ambiente digital, costuma ser comparado a nomes como IShowSpeed e KSI, com quem já colaborou. O momento mais marcante da carreira, porém, foi além de qualquer polêmica: uma transmissão beneficente na qual ficou 12 dias trancado em uma caixa de vidro em Dubai, arrecadando 11 milhões de dólares para refugiados. A ação bateu dois recordes mundiais, o de maior transmissão ao vivo já feita e o de maior público em uma live beneficente.

Sentado em um pufe no chão do estúdio, Suleiman fala do mesmo jeito que transmite: rápido, sem filtro, em frases longas que às vezes interrompe para pedir desculpas. O hábito se repete antes, durante e depois da entrevista.

Agora, com 50 milhões de inscritos, uma empresa em crescimento, um desenho animado em produção e a meta de chegar a 100 milhões, ele começa a pensar no que vem depois.

Sobre o personagem Slayman, em parceria com o canal Spacetoon, Suleiman contou que sempre gostou de desenhos animados. Quando surgiu a possibilidade de virar personagem, abraçou a ideia na hora. A previsão é de que o projeto estreie até o começo do próximo ano. Para ele, a TV representa um desafio diferente das redes, mais rígido e com menos espaço para improviso, justamente o que o levou a recusar ofertas de atuação e apresentação no formato tradicional.

A relação com o pai também mudou ao longo do tempo. No início, a família não entendia o trabalho nas redes como uma profissão de verdade. Hoje, segundo Suleiman, o pai está satisfeito e orgulhoso, principalmente por causa das ações beneficentes. O criador lembra que só recebeu o primeiro pagamento do YouTube depois de quatro anos de atividade, período em que se manteve firme porque amava o que fazia.

Para Suleiman, começar no YouTube hoje é mais fácil do que antes, principalmente por causa do alcance dos vídeos curtos. Mesmo assim, ele reforça a importância de acreditar no próprio potencial e deixar o resto nas mãos de Deus.

Sobre a carreira de empresário, ele admite que não sabe quase nada de negócios. O foco continua sendo a criação de conteúdo, e por isso cercou-se de parceiros com experiência, como Eyad Siyam, que construiu e vendeu uma empresa no Reino Unido. A estratégia é simples: cada um cuida do que sabe fazer melhor.

As ações beneficentes, na avaliação dele, foram o que de mais bonito já fez. Não houve retorno financeiro direto, mas renderam visibilidade, novos patrocínios e a sensação de propósito. A responsabilidade de ter milhões de seguidores também pesou no começo, mas Suleiman aprendeu a lidar com a cobrança e a aceitar que agradar a todos é impossível.

A nova ambição é se tornar o primeiro criador do Oriente Médio, Norte da África e de toda a África a atingir 100 milhões de inscritos.

Quando o assunto é a proibição de redes sociais para crianças, defendida em alguns países, Suleiman é categórico: a responsabilidade precisa ser dividida entre criadores e famílias. Para ele, os produtores de conteúdo devem se respeitar e oferecer material adequado, pedindo desculpas quando erram. As famílias, por sua vez, não podem transferir essa tarefa para os influenciadores.

Embora ainda não seja casado, Suleiman já tem opinião formada sobre o assunto. Diz que pretende adiar ao máximo o contato dos futuros filhos com as redes sociais. Defende que a criança brinque, caia, se machuque e viva experiências reais, em vez de crescer conectada o tempo todo. Para ele, os vídeos curtos funcionam como uma dopamina barata, criada para sugar a atenção, e o uso precisa ter limite — nem que seja meia hora por dia.

A matéria foi publicada originalmente pela WIRED Oriente Médio.

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