À medida que os carros modernos se transformam em verdadeiros computadores sobre rodas, motoristas começam a entender a necessidade de instalar atualizações de segurança no software dos veículos, da mesma forma que fariam em um telefone ou notebook. O que poucos imaginam, porém, é que existe um componente de terceiros — nunca solicitado pelo proprietário e do qual nem sequer se tem ciência — conectado a alguns dos sistemas mais sensíveis do automóvel, abrindo caminho para invasões silenciosas, rastreamento e até a imobilização do carro no meio da estrada.
Essa foi a descoberta preocupante de uma equipe de pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego. Eles identificaram que um modelo de alarme automotivo conhecido como KARR Security System, presente em mais de dois milhões de veículos nos Estados Unidos, segundo estimativas dos próprios investigadores, permite que qualquer pessoa dentro do alcance do sinal de Bluetooth envie comandos de rádio capazes de destrancar o carro sem ruído, desligar o alarme, acionar a buzina, piscar os faróis ou até mesmo cortar a ignição e deixar o motorista desamparado.
A instalação dos dispositivos costuma ser feita pelas concessionárias — e não pelas montadoras ou pelos donos — como forma de proteger os veículos nos pátios de revenda contra furtos. No entanto, quando os automóveis são comercializados, os alarmes geralmente permanecem no lugar, mesmo que o comprador opte por não pagar pelo recurso adicional. O resultado é que milhões de motoristas norte-americanos circulam com um aparelho vulnerável sob o capô, cujo código precisa ser atualizado, mas que, em boa parte dos casos, jamais foi adquirido e é completamente desconhecido pelo proprietário.
"Trata-se de um sistema acrescentado aos carros pelas concessionárias e que, infelizmente, apresenta uma falha grave capaz de permitir o acesso a qualquer um desses veículos", afirmou Aaron Schulman, professor de ciência da computação da UC San Diego e líder do estudo. "A intenção era tornar os automóveis mais seguros, mas, no fim das contas, criou-se uma vulnerabilidade que exige correção imediata em milhões de unidades. Estamos tentando alertar que é preciso verificar a presença desse dispositivo e aplicar a atualização manualmente agora mesmo."
A Acrisure Protection Group, empresa responsável pela comercialização do KARR Security System, disponibilizou nesta semana uma atualização de firmware voltada para a versão com Bluetooth do alarme, com o objetivo de sanar as brechas reveladas pela equipe da universidade. Motoristas que já contam com o aplicativo do KARR em seus telefones devem receber uma notificação automática sobre a nova versão. Quem não possui o programa precisará baixá-lo (disponível para Android e iOS), conectá-lo ao alarme do veículo e, em seguida, acessar as opções "atendimento ao cliente" e "atualização de firmware".
Como pelo menos metade dos proprietários que têm o KARR instalado nunca optou pelo dispositivo, de acordo com a estimativa da UC San Diego, é possível checar a presença do equipamento procurando por um adesivo com a marca KARR no vidro do lado do motorista — ou, em alguns casos, uma etiqueta com a sigla SWDS, referente à SouthWest Dealer Services, subsidiária da Acrisure. Outro indicativo é um pequeno botão com luz intermitente fixado na parte inferior do painel. Embora o aparelho seja mais comum em concessionárias do sul da Califórnia, os pesquisadores afirmam ter encontrado unidades em veículos espalhados por todo o território norte-americano e também em outros países.
A dificuldade de alcançar os motoristas afetados, somada ao risco concreto de que a falha seja explorada para roubo, torna essa brecha "provavelmente a pior" ameaça de invasão automotiva já descoberta, na avaliação de Stefan Savage, também professor de ciência da computação na UC San Diego, embora não tenha participado diretamente deste estudo. Savage integrou a primeira equipe a hackear a direção e os freios de um carro, entre 2010 e 2011. "O problema atinge um número enorme de veículos, o fabricante do automóvel não tem como resolver e o proprietário nem sabe que tem a questão", declarou. "Reúne todos os elementos que um ladrão de carros deseja, mas sem nenhuma das vantagens que normalmente teríamos para nos defender, porque estamos desconectados da cadeia de suprimentos que colocou o dispositivo ali."
Quando procurada para comentar o caso, a Acrisure Protection Group enviou um comunicado afirmando que "a vulnerabilidade descrita na pesquisa é altamente complexa e apresenta baixo risco para os clientes em condições reais". A empresa garantiu, no entanto, que "respondeu prontamente e desenvolveu uma atualização de firmware para corrigir a questão". Informou ainda que notificará os proprietários por meio do aplicativo, do site oficial e de "comunicações com as concessionárias", sem detalhar como pretende contatar motoristas que desconhecem a presença do alarme — incluindo aqueles cujos veículos já foram revendidos e estão fora do alcance das revendas.
Apesar da afirmação de que a correção foi feita "prontamente", a empresa levou cerca de 18 meses para disponibilizar a solução. Os pesquisadores comunicaram a falha em janeiro do ano passado, mas o conserto só veio à público poucas semanas antes das apresentações previstas nas conferências de segurança Defcon e Usenix, agendadas para o mês que vem.
A alegação de que a vulnerabilidade representa risco "baixo" em condições reais também merece cautela. Em uma série de demonstrações realizadas para a reportagem, os pesquisadores mostraram que é possível utilizar um aplicativo próprio no sistema Android para enviar comandos via Bluetooth a veículos vulneráveis equipados com o KARR, executando uma série de ações potencialmente perigosas. Bastam alguns toques na tela para destrancar um carro parado em um semáforo, facilitando um roubo ou um assalto; para imobilizar instantaneamente um veículo estacionado, impedindo seu funcionamento; ou, por meio de um botão apelidado de "caos", acionar buzinas e luzes de diversos carros ao mesmo tempo, como foi exibido em um estacionamento do campus universitário.
A boa notícia é que as falhas não permitem, por si só, ligar o motor do veículo. Contudo, os pesquisadores demonstraram que ferramentas de chaveiro facilmente encontradas em anúncios na internet podem, depois que o invasor já está dentro do carro, ser conectadas ao painel para criar uma chave funcional em poucos minutos. Normalmente, ladrões que recorrem a esse recurso precisam quebrar uma janela ou usar dispositivos de arrombamento, o que pode disparar o alarme. Combinada com a brecha do KARR, a invasão pode ocorrer de forma totalmente silenciosa.
O ponto central que viabiliza todos esses truques de sabotagem e intrusão, segundo a equipe da UC San Diego, é uma única chave de autenticação compartilhada por todos os dispositivos KARR. Os pesquisadores localizaram essa chave também no código do aplicativo oficial, utilizado por clientes que pagam pelo serviço. A partir dela, e com um aplicativo caseiro criado por meio da engenharia reversa do software original, conseguiram simular comandos de rádio aceitos por qualquer equipamento KARR com Bluetooth nas proximidades.
A fragilidade se agrava pelo fato de que, mesmo quando o comprador recusa pagar pelo alarme, o dispositivo permanece no veículo, transmitindo e recebendo sinais de Bluetooth enquanto o carro está ligado e por até dez minutos após ser desligado. Embora o equipamento fique em estado "desativado" para esses motoristas, os pesquisadores descobriram que é possível ativá-lo remotamente com um comando de rádio e, em seguida, executar toda a gama de ataques disponíveis. A ativação provoca apenas um breve bipe da buzina e um piscar dos faróis, único sinal de que o proprietário poderia perceber de que algo aconteceu. Para os milhares de clientes que efetivamente pagaram pelo sistema, nem mesmo esse aviso existe.
A origem da descoberta remonta a 2018, quando o pesquisador Nishant Bhaskar, ao analisar dispositivos de skimmer projetados para roubar dados de cartões de crédito em bombas de combustível, começou a captar sinais de Bluetooth misteriosos nos postos. Em seguida, percebeu que os mesmos sinais apareciam em highways, vindos de veículos de diversas marcas e modelos. A partir dos prefixos de texto contidos nas transmissões, consultou um banco de dados da Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos e descobriu que se tratava do KARR.
Anos depois, em 2024, o então pesquisador de pós-graduação Jerry Yu procurava um projeto de verão, quando Schulman sugeriu que examinasse a segurança do aparelho. Yu logo encontrou a chave universal de autenticação no aplicativo, uma falha gritante. "Depois que fizemos a engenharia reversa do aplicativo deles, percebemos rapidamente que o protocolo interno de autenticação era tão simples que conseguimos extraí-lo e implementá-lo em nosso próprio programa, o que fizemos", relatou Yu. O resultado foi um aplicativo capaz, segundo os pesquisadores, de destrancar "todo e qualquer carro no qual esse dispositivo foi instalado".
Para dimensionar a quantidade de unidades vulneráveis em circulação, a pesquisadora Yibo Wei recorreu ao banco de dados colaborativo de radiocomunicações WiGLE, que reúne sinais captados por antenas de colaboradores em todo o mundo. Com base nas leituras e na extrapolação a partir dos números de série, estimou que mais de dois milhões de dispositivos KARR com Bluetooth já foram instalados. O mesmo WiGLE, porém, não serve apenas como instrumento de medição: também pode permitir que invasores acompanhem o histórico de deslocamentos de carros vulneráveis por meio da assinatura de Bluetooth, identificando locais onde o veículo costuma ficar estacionado — um mecanismo assustadoramente simples de reconhecimento para planejar furtos ou sabotagens.
Nas varreduras realizadas pela própria equipe, os pesquisadores encontraram automóveis equipados com o KARR praticamente em todos os locais onde buscaram. Em um curto passeio pelas imediações do campus, realizado com um telefone Android comum, identificaram 97 veículos com o alarme em apenas 20 minutos.
Schulman e seu grupo assumiram a responsabilidade de alertar cada um desses motoristas sobre o equipamento oculto instalado em seus carros. "Quando se instala algo por padrão em uma concessionária, em todo veículo vendido, a abrangência da vulnerabilidade se torna inimaginável", afirmou. "Por isso precisamos divulgar e espalhar essa informação, porque a única forma de resolver o problema de fato é unir esforços e fazer com que todos atualizem seus próprios carros."
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