Há menos de três anos, a Ruark Audio, fabricante britânica de equipamentos de alta fidelidade com quatro décadas de experiência no mercado, preparava-se para abandonar definitivamente os formatos físicos. O CD parecia pertencer a uma era ultrapassada, e a indústria apostava que o consumidor moderno demandava apenas acesso imediato a catálogos digitais e serviços de streaming. No entanto, o inesperado aconteceu.
A empresa subestimou seu público. Longe de abandonar as mídias físicas, uma parcela crescente dos consumidores demonstrou interesse crescente em retornar a elas, obrigando a Ruark a reverter completamente sua estratégia. "Todos começaram a perguntar sobre CDs", relatou Alan O'Rourke, proprietário e CEO da empresa. Essa pressão popular foi tão intensa que a marca precisou acelerar a reformulação de sua linha de produtos.
A pergunta que fica é: o CD está realmente de volta? Muitos argumentarão, com razão, que ele nunca desapareceu completamente das prateleiras dos audiófilos. Porém, dados dos Estados Unidos, Reino Unido e Espanha confirmam que, após anos perdendo espaço para o streaming e formatos digitais, uma mudança histórica nessa tendência está começando a se manifestar.
De acordo com informações da RIAA, as vendas físicas nos Estados Unidos se mantiveram tão robustas que agora superam os downloads digitais numa proporção de 6 para 1, uma mudança impensável há uma década. O streaming ainda domina com 82% do mercado, mas o setor físico está crescendo de forma mais dinâmica do que o digital.
O mesmo fenômeno ocorre no Reino Unido e na Espanha. Conforme os relatórios mais recentes da Promusicae, o setor físico espanhol experimentou um aumento espetacular de 31% na receita, ultrapassando os 41 milhões de euros. Esse crescimento foi impulsionado pelo boom do vinil, que cresceu 30%, mas também pelo renascimento do CD, com alta de quase 10%. Em termos práticos, o CD passou de gerar 11,6 milhões de euros em 2024 para mais de 12,6 milhões de euros em apenas 12 meses, um incremento de um milhão de euros.
A explicação para esse fenômeno, segundo a Ruark em entrevista à publicação What Hi-Fi?, reside em um aspecto tanto psicológico quanto tecnológico: a fadiga digital e o profundo desejo dos usuários por algo tangível. O CEO da marca britânica argumenta que o CD representa, na verdade, "o último formato físico que a humanidade terá".
Após anos consumindo música "invisível" por meio de telas, o público — especialmente as gerações mais jovens — está redescobrindo o valor de "possuir" algo real, um objeto durável e imune a mudanças repentinas de licenciamento. "Como seres humanos, somos colecionadores por natureza: gostamos de acumular coisas", complementa O'Rourke.
Os CDs nunca foram apenas música: são mercadoria. Encartes, capas e edições especiais funcionam como objetos de identidade e decoração, além de uma forma clara de apoiar os artistas. Simultaneamente, o streaming tornou a música tão fácil e automatizada que ela perdeu parte de seu valor emocional. É por isso que muitos estão voltando aos CDs ou ao vinil: porque estão resgatando um ritual — escolher um disco, abri-lo, ler as notas do encarte, ouvi-lo do início ao fim — que a instantaneidade digital de alguma forma apagou.
Em resumo: tangibilidade, permanência, colecionabilidade e qualidade de áudio sem perdas. Diversos motivos que deixam claro que a mídia física tem um futuro promissor e até mesmo empolgante. Algo semelhante está acontecendo com os filmes em Blu-ray. E quanto aos videogames? Por terem chegado depois das demais plataformas digitais, talvez ainda estejam alguns anos atrasados nesse processo.
Fonte: IGN Brasil
