Três profissionais que passaram anos desenvolvendo a infraestrutura de inteligência comportamental por trás do mecanismo de recomendações do Spotify decidiram levar essa mesma tecnologia para o universo das compras online. Sidd Motwani, Ian Anderson e Shivaditya Sinha estão à frente da Malachyte, startup que anunciou nesta quinta-feira a captação de 10 milhões de dólares em financiamento inicial.
Os recursos serão destinados à expansão da distribuição da plataforma e à contratação de novos líderes para as áreas de produto e comercial. A rodada foi conduzida em conjunto pelas gestoras Bessemer Venture Partners e Gradient, com participação da Harpoon Ventures.
No Spotify, o trio ajudou a construir o chamado Vector AI, sistema responsável por cerca de 90% das recomendações da plataforma para sua base de 800 milhões de usuários. Diferente dos modelos tradicionais, a ferramenta foi pensada para antecipar a intenção e os próximos passos de uma pessoa, em vez de depender exclusivamente do histórico de comportamento.
A Malachyte parte da constatação de que a maior parte das lojas virtuais trata todos os consumidores da mesma maneira. A personalização costuma se apoiar em compras anteriores, segmentação demográfica ou perfis de clientes cadastrados, o que faz com que visitantes iniciantes enxerguem vitrines genéricas, enquanto clientes recorrentes recebem sugestões baseadas quase sempre no que já compraram, e não no que de fato precisam naquele momento.
Para reverter esse cenário, a empresa aposta em experiências de compra capazes de reconhecer intenções em tempo real. Sua plataforma utiliza o que os fundadores descrevem como um Vector AI de duas frentes: de um lado, ela prevê qual produto o consumidor deseja em seguida; de outro, aprende o gosto geral da pessoa e se ajusta continuamente a partir das ações realizadas durante a navegação.
Segundo Motwani, que ocupa o cargo de diretor-executivo, o sistema começa a montar o perfil do visitante antes mesmo do primeiro clique, aproveitando o contexto disponível no instante em que a página é carregada. Dentro de uma única sessão, a plataforma consegue formar uma leitura concreta tanto das preferências quanto do objetivo imediato do usuário.
Um exemplo prático: ao buscar por "botina de trabalho pesado" e clicar duas vezes em calçados com biqueira de aço, o consumidor faz com que calças e luvas de trabalho subam na página, enquanto sapatos sociais perdam posições, tudo isso sem que exista qualquer cadastro ou histórico prévio. Quanto mais ações o usuário realiza, mais refinado fica o perfil, e o mesmo acontece em visitas futuras.
Para o executivo, os varejistas já dispõem da fonte mais valiosa de inteligência sobre o cliente, mas raramente a exploram em tempo real. Cada passagem do cursor, clique, rolagem de tela, refinamento de busca ou adição ao carrinho funciona como um sinal, e a maioria dos sistemas ou ignora essa informação no momento exato da interação ou a resume em segmentos genéricos durante a madrugada.
Os sinais contextuais também estariam sendo subaproveitados, na visão de Motwani. Um visitante acessando a loja pelo celular às 23 horas, após clicar em um link de e-mail, está em um estado mental completamente diferente da mesma pessoa navegando em um laptop no meio da manhã, mas a maior parte das plataformas trata os dois cenários como idênticos.
A Malachyte vem desenvolvendo e testando sua tecnologia desde 2024. No início, a empresa trabalhou com mais de 20 clientes corporativos dos setores de viagens, supermercados e varejo antes de se concentrar no comércio eletrônico. A estreia oficial da plataforma ocorreu no outono de 2025, em parceria com a Fun.com. Desde junho de 2026, a solução está disponível de forma ampla para lojistas da Shopify por meio de uma integração nativa, enquanto grandes varejistas podem adotar a tecnologia via interface de programação.
Olhando para o futuro, Motwani enxerga uma oportunidade ainda maior em unificar as áreas de merchandising e marketing em torno de uma compreensão compartilhada do comportamento do consumidor.
Fonte: TechCrunch

