Em um mercado dominado por gigantes como Spotify e Apple Music, uma plataforma francesa de streaming de música de alta resolução está conquistando usuários insatisfeitos com as práticas das grandes empresas do setor. Qobuz, que completou 19 anos de existência e chegou aos Estados Unidos em 2019, viu sua base de assinantes disparar nos últimos meses, passando de aproximadamente 500 mil para 1,2 milhão de usuários ativos mensais em 2025.
O crescimento expressivo aconteceu após uma série de eventos que expuseram as práticas comerciais do Spotify. Em janeiro de 2025, o lançamento do livro Mood Machine, de Liz Pelly, criticou duramente o modelo de negócios da gigante sueca, revelando entrevistas com ex-funcionários e artistas que demandavam uma economia mais justa na indústria musical. "Isso não é uma empresa de música; a música era apenas um meio para um fim", sintetizou Dan Mackta, diretorgerente da Qobuz em Nova York.
O ponto de inflexão ocorreu em outubro, quando usuários do Spotify começaram a compartilhar nas redes sociais anúncios de recrutamento da ICE que apareciam na plataforma gratuita, viralizando no TikTok e Instagram Reels. "O dia que essa história estourou foi o melhor dia que já tivemos nos Estados Unidos", relatou Mackta. Outro pico de conversões aconteceu em dezembro, impulsionado pelo Spotify Wrapped, ferramenta anual de resumo musical da própria concorrentes.
A proposta diferenciada da Qobuz está nos números. A plataforma paga em média 18,73 dólares por mil reproduções, segundo dados verificados por auditor independente em março de 2025, enquanto o Spotify paga entre 3 e 5 dólares pelo mesmo volume. Em múltiplas avaliações e relatos de artistas, a Qobuz oferece a maior taxa por reprodução entre os serviços de streaming de alta resolução, chegando a pagar cinco a seis vezes mais que a concorrentes sueca.
Diferentemente do modelo tradicional, a Qobuz não possui versão gratuita com anúncios, podcasts, audiolivros ou vídeos. O foco é exclusivamente na música: streaming de alta resolução, downloads pagos e conteúdo editorial musical. Mais de 100 mil pessoas participam dos fóruns da Qobuz Club, com um pacote VIP anual de 60 dólares oferecendo benefícios e serviço prioritário.
Em fevereiro deste ano, a empresa publicou sua Carta de Inteligência Artificial, estabelecendo linhas vermelhas para proibir e remover conteúdo 100% gerado por IA que tem inundado as plataformas de streaming. A equipe desenvolveu um algoritmo de aprendizado de máquina para detectar músicas geradas por IA, e já identificou que até 40% das faixas entregues utilizam geração artificial. "Já começamos a ver algumas 'gravadoras' onde 100% é lixo de IA. Proibam isso e deem um fora desses caras", criticou Mackta.
A plataforma french, agora com cerca de 100 funcionários em tempo integral, todos acionistas, e 30 contratantes, planeja alcançar 1% do mercado de streaming pago. Sob a liderança do CEO francês Denis Thébaud, a expectativa é atingir a lucratividade até março de 2027. O faturamento com streaming cresceu 45,7% em 2025, muito acima dos 8,8% do mercado geral de streaming pago.
Entre as novidades previstas para 2026, a plataforma lançará uma versão atualizada do player com letras sincronizadas, acesso rápido aos créditos dos álbuns e botão para explorar outras lançamentos do artista, gravadora e recomendações baseadas na faixa escuchada. Há também parcerias em andamento com a Rough Trade e exclusividades em gêneros como hip-hop, rock, blues e folk.
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