As stablecoinsGanharam protagonismo nas discussões sobre o futuro do sistema financeiro global, mas o Banco Central brasileiro avalia que versões lastreadas em real podem enfrentar um mercado mais limitado no país comparado a outras economias. A razão principal está na avançada infraestrutura de pagamentos que os brasileiros já possuem, tendo o Pix como principal expoente dessa revolução.
A hegemony do Pix no cotidiano brasileiro
Durante painel no TokenNation 2026, Pedro Nascimento, coordenador do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro do Banco Central, apresentou a visão institucional sobre o tema. Segundo ele, a autoridade monetária enxerga uma demanda relativamente reduzida para o uso cotidiano de stablecoins lastreadas em real, uma vez que grande parte das necessidades dos consumidores já é atendida pelos meios de pagamento existentes no país.
“A nossa impressão é que o apetite interno do Brasil, da população, para realmente usar esses instrumentos é limitado, porque grande parte da demanda já é atendida por outros meios de pagamento”, afirmou o representante do BC, citando entre as alternativas já consolidadas o Pix, cartões, TEDs e outras ferramentas amplamente adotadas pelos brasileiros.
O verdadeiro potencial está na tokenização
A avaliação do Banco Central não significa, contudo, que a instituição veja pouco potencial para esse tipo de ativo. Nascimento destacou que o principal valor das stablecoins pode estar em aplicações liées à tokenização de ativos e à liquidação financeira em ambientes baseados em blockchain. “Se a gente tokenizar de uma maneira mais ampla, seria muito útil ter uma camada nativa de liquidação desses ativos em blockchain”, explicou.
O tema ganhou força nos últimos meses diante do avanço das stablecoins em todo o mundo e do surgimento de iniciativas voltadas à emissão de versões lastreadas em real por empresas do setor cripto. Segundo o coordenador, a regulamentação mais ampla desse mercado ainda depende de discussões legislativas, especialmente sobre regras para emissão desses ativos.
Stablecoins como ponte entre finanças tradicionais e blockchain
Se o Banco Central vê limitações para o uso das stablecoins de real como meio de pagamento cotidiano, representantes da indústria destacam que esses ativos vêm se consolidando como a principal porta de entrada da tecnologia blockchain no sistema financeiro. Jorge Borges, head Latam da Fireblocks, afirmou que as stablecoins já representam mais de dois terços do volume processado pela companhia, uma mudança significativa em relação aos primeiros anos do mercado cripto.
“Lá atrás o volume era 20% stablecoin e 80% outros ativos cripto. Hoje está próximo de dois terços do volume”, revelou. Segundo ele, o principal valor das stablecoins não está necessariamente na experiência de pagamento do consumidor final, mas nos processos de liquidação e movimentação de recursos que acontecem nos bastidores do sistema financeiro. “O pagamento já é 24 por 7. O que a gente vê muito valor na cadeia é o que acontece por trás, o que a gente chama de liquidação”, detalhou.
Borges argumentou ainda que as stablecoins estão servindo como uma ponte para uma transformação mais ampla dos mercados financeiros, abrindo caminho para produtos tokenizados como ações, ETFs e outros ativos tradicionais. “A stablecoin foi a ponte que está permitindo que o mercado financeiro tradicional comece a experimentar a tecnologia em escala”, ponderou.
Coexistência entre diferentes meios de pagamento
Apesar do crescimento das stablecoins, a expectativa dos participantes do painel é que os diferentes meios de movimentação de dinheiro coexistam nos próximos anos, em vez de competir diretamente entre si. Antônia Souza, diretora de moedas digitais da Visa para América Latina e Caribe, destacou que a empresa enxerga Pix, cartões e criptoativos como soluções complementares.
“No final do dia, a gente quer que o usuário possa escolher a melhor solução para ele no caso de uso que faz sentido para ele”, afirmou. Segundo ela, o próprio mercado já mostra exemplos dessa integração: atualmente, usuários podem transferir recursos via Pix para plataformas de criptoativos, converter os valores em stablecoins ou outras criptomoedas e, posteriormente, gastar os recursos por meio de cartões vinculados às carteiras digitais.
“Essas três modalidades já estão sendo utilizadas. O Pix facilita a compra da cripto, o cartão facilita o gasto, e essas tecnologias vão coexistir. Uma potencializa a outra”, concluiu a executiva, defendendo que o setor ainda está apenas começando a explorar as possibilidades abertas pela convergência entre sistemas tradicionais e tecnologia blockchain.
