A Venezuela viveu nesta quarta-feira um dos fenômenos mais raros e perigosos da sismologia: um doubleto sísmico. Dois terremotos de magnitudes 7.2 e 7.5 na escala Richter sacudiram o país com apenas 39 segundos de diferença, deixando um rastro de destruição que levou o governo a declarar estado de emergência nacional.
Os epicentros foram localizados a noroeste da cidade de Yumare, próximo à região de Morón, a aproximadamente 160 quilômetros a oeste de Caracas. Os tremores ocorreram em profundidades de 20,3 e 10 quilômetros, sendo sentidos em praticamente toda a faixa norte venezuelana e em diversos países do Caribe.
Este tipo de evento, classificado como doubleto sísmico severo, acontece quando dois terremotos de magnitude semelhante atingem áreas próximas quase que simultaneamente. Segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos, a probabilidade de um terremoto ser seguido por outro de maior magnitude em uma região próxima, dentro de uma semana, é de apenas 5%.
Mark Allen, professor do Departamento de Ciências da Terra da Universidade de Durham, explicou que o primeiro terremoto provavelmente provocou a ruptura de um segmento da falha, transferindo a tensão acumulada para uma falha adjacente, que cedeu imediatamente após, gerando o segundo evento.
As características geológicas da região desempenharam um papel fundamental. Os epicentros localizam-se no limite entre a Placa Sul-Americana e a Placa do Caribe, onde as placas se movem lateralmente entre si, em um processo semelhante ao que ocorre ao longo da Falha de San Andreas, na Califórnia.
Este tipo de movimento geológico, conhecido como falha transcorrente, favorece terremotos que se originam em profundidades relativamente rasas. Diferentemente dos tremores de subducção, que ocorrem quando uma placa tectônica desliza sob outra, os earthquakes transcorrentes acontecem mais próximos da superfície terrestre.
Como resultado, a energia liberada percorre uma distância menor antes de atingir áreas povoadas, o que aumenta significativamente a intensidade dos tremores sentidos pela população e eleva o risco de danos estruturais graves.
O professor Allen alertou que existe risco de novos tremores secundários na região de Caracas. A capital venezuelana está localizada em uma área propensa à atividade sísmica, e é possível que falhas locais tenham sido submetidas a tensões adicionais após os eventos recentes.
Esta previsão coincide com as estimativas do Serviço Geológico dos Estados Unidos, que señala que, após terremotos desta magnitude, a atividade sísmica pode continuar por dias, semanas ou até mais tempo. Embora a frequência diminua com o tempo, ainda existe a possibilidade de tremores secundários de grande potência.
Os relatórios oficiais indicam que, até o momento, os dois terremotos que atingiram a Venezuela resultaram na morte de pelo menos 164 pessoas e deixou quase mil feridos. O Serviço Geológico dos Estados Unidos estima que o número final de vítimas fatais pode variar entre 10 mil e 100 mil, considerando fatores como a intensidade dos tremores, a qualidade das construções e a densidade populacional nas áreas afetadas.
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