A startup britânica Synthesia, conhecida por permitir que empresas criem vídeos institucionais gerados por inteligência artificial em poucos minutos, anunciou nesta quarta-feira uma nova aposta estratégica. A empresa lançou os chamados Roleplay Sessions, produto que transforma avatares com inteligência artificial em interlocutores dinâmicos para sessões práticas de treinamento corporativo.
Diferentemente da proposta original da companhia, centrada na produção de conteúdo audiovisual, a novidade aposta na execução e na mensuração de resultados. Os funcionários podem agora treinar situações de alta pressão, como apresentações comerciais, avaliações de desempenho e atendimento a clientes insatisfeitos, conversando com um personagem virtual capaz de responder, contestar e, ao final, atribuir uma nota com base em critérios predefinidos.
O Roleplay representa o primeiro lançamento de uma plataforma mais ampla, batizada de Sessions, que deve ganhar novas funcionalidades nos próximos meses. Entre os próximos passos estão a preparação para entrevistas de emprego e processos de seleção de candidatos.
O movimento acontece em um momento em que grandes corporações reavaliam seus investimentos em inteligência artificial e buscam evidências concretas de retorno financeiro. A própria Synthesia defende, com base em uma metanálise de pesquisas sobre aprendizagem, que a maioria dos treinamentos corporativos — inclusive os baseados em vídeo — tende a informar e demonstrar, mas raramente leva à mudança real de comportamento. A verdadeira consolidação do aprendizado ocorreria na prática, acompanhada de retorno estruturado.
Para Victor Riparbelli, cofundador e presidente executivo da empresa, a abordagem marca uma evolução natural. Ele reconhece que o formato em vídeo já supera alternativas como textos e documentos, mas reforça que a retenção real acontece quando o colaborador coloca a mão na massa. A nova ferramenta, segundo ele, foi desenhada justamente para preencher essa lacuna entre teoria e prática.
Do ponto de vista competitivo, a mudança reposiciona a Synthesia no mercado. Embora sua tecnologia de avatares e vozes seja própria, o motor de raciocínio utilizado é fornecido pela OpenAI. Ao acrescentar uma camada de critérios de avaliação, dados de desempenho e análises, a companhia deixa de ser vista apenas como uma fornecedora de avatares artificiais e passa a se apresentar como uma plataforma voltada à gestão de performance, com o vídeo como interface de entrada.
Riparbelli afirma que a receptividade do mercado tem sido forte, especialmente entre executivos interessados em mapear o talento dentro das organizações. Treinar toda a equipe de vendas com um simulador baseado em inteligência artificial, por exemplo, permitiria extrair indicadores detalhados sobre o desempenho coletivo da força comercial, algo difícil de obter com métodos tradicionais.
A empresa já conta com clientes pioneiros em implantações comerciais em larga escala. Entre eles estão uma das três maiores companhias europeias em valor de mercado, uma das cinco maiores do ranking Fortune 100 e uma das maiores empresas de recrutamento do mundo. Os casos de uso mais demandados envolvem capacitação de equipes de vendas e formação de líderes, com destaque para o desenvolvimento de habilidades interpessoais, como conduzir conversas difíceis ou apresentar um produto de forma convincente.
Assim como no produto principal da Synthesia, os clientes podem desenvolver seus próprios programas de treinamento na plataforma ou contratar consultores especializados da empresa para criar soluções personalizadas, aproveitando documentos e contextos internos já existentes.
Por enquanto, a oferta é voltada exclusivamente ao mercado corporativo, mas a intenção é ampliá-la para pequenas empresas, profissionais autônomos e, possivelmente, instituições de ensino nos próximos meses, à medida que os custos de processamento de inteligência artificial seguem em queda. Na visão do executivo, produtos como o Roleplay simbolizam a próxima fase da adoção de inteligência artificial nas empresas, fase em que importa menos o impacto visual da tecnologia em demonstrações públicas e mais a comprovação de resultados mensuráveis nos negócios.
Fonte: TechCrunch
