Uma pesquisa publicada na revista Nature Communications revelou uma nova conexão entre a saúde intestinal e o desenvolvimento do Alzheimer. Os cientistas identificaram que um composto produzido por certas bactérias no intestino pode enfraquecer a barreira de proteção do cérebro e acelerar alterações associadas à doença cognitiva.
Há anos os pesquisadores sabem que o microbioma intestinal de pessoas com Alzheimer é diferente daquele de indivíduos saudáveis. O que ainda não estava claro era se essas diferenças eram uma consequência da doença, se contribuíam para o seu desenvolvimento ou apenas acompanhavam o problema.
A equipe de cientistas acredita ter encontrado uma peça importante desse quebra-cabeça. O estudo identificou o propionato de imidazol, um composto produzido por bactérias intestinais a partir do metabolismo de um aminoácido chamado histidina. Essa substância pode entrar na corrente sanguínea e circular por todo o corpo.
O problema começa na fronteira do cérebro. Os experimentos mostraram que o propionato de imidazol pode comprometer a barreira sangue-cérebro, aquela estrutura que protege o órgão e controla quais substâncias podem acessá-lo. Quando essa barreira fica mais permeável, o metabolite consegue chegar ao cérebro e interagir diretamente com os neurônios.
É aí que entram dois elementos fundamentais do Alzheimer: as proteínas amiloide beta e tau. Na doença, a amiloide beta se acumula formando placas entre os neurônios, enquanto a tau sofre modificações anormais que alteram seu funcionamento. Ambos os processos estão relacionados à deterioração neuronal e representam dois dos principais marcadores biológicos da enfermidade.
Nos experimentos, o propionato de imidazol demonstrou capacidade de agravar essas duas condições. Os pesquisadores verificaram que a substância pode promover o acúmulo de placas de amiloide beta e aumentar a fosforilação da proteína tau.
Para testar essa relação em humanos, os cientistas analisaram amostras de sangue de mil cento e noventa e seis adultos cognitivamente saudáveis, com idade média de sessenta e um anos. Aqueles com níveis mais elevados do metabolite obtiveram, em média, resultados piores em testes cognitivos. Também apresentaram concentrações mais altas de pTau-217, uma forma modificada da proteína tau usada como biomarcador do Alzheimer, além de níveis elevados de NfL, proteína liberada quando há dano neuronal.
Os pesquisadores acompanharam esses participantes ao longo do tempo e descobriram que pessoas com as maiores concentrações do metabolite apresentaram declínio cognitivo mais rápido comparadas àquelas com os menores níveis.
Experimentos com camundongos geneticamente modificados para desenvolver características do Alzheimer também produziram resultados consistentes. Animais que receberam propionato de imidazol durante meses apresentaram piora nos sinais da doença, com aumento das placas de amiloide beta em alguns casos e agravamento das anormalidades de tau em outros.
Os cientistas alertam, contudo, que não existe um "bactério do Alzheimer". Várias bactérias capazes de produzir o propionato de imidazol também são encontradas em pessoas saudáveis. Ter esses microrganismos no intestino não significa necessariamente que uma pessoa acumulará grandes quantidades do metabolite, cuja concentração no sangue depende de uma combinação de fatores como idade, sexo, genética, dieta e composição do microbioma.
Quanto ao desenvolvimento de um medicamento para eliminar essas bactérias, os pesquisadores são cautelosos. Elas produzem o propionato de imidazol ao metabolizar a histidina, um aminoácido essencial encontrado em diversos alimentos, especialmente os ricos em proteínas. Uma abordagem mais promissora seria mirar o próprio metabolite ou a maquinaria bacteriana que o produz, de forma semelhante ao uso de estatinas para reduzir o colesterol ruim e diminuir o risco cardiovascular.
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