Jodi Beggs teve seu currículo rejeitado por ter duas páginas. Em outro documento, usou suas iniciais do meio e perdeu pontos. Bastou trocar a palavra "porcento" pelo símbolo % para sua pontuação aumentar. Beggs, cientista de dados em busca de emprego, recebeu essas informações de um sistema online que compara descrições de vagas com materiais de candidatos para avaliar a compatibilidade entre eles.
Essas ferramentas, das quais Jobscan é a mais conhecida, funcionam com base na premissa de que comissões de contratação usam inteligência artificial para avaliar e classificar automaticamente candidatos em seus sistemas de rastreamento de candidatos. Apenas os 10% a 20% melhores classificados são considerados. Os outros 80% podem nunca ser vistos. Para entrar na lista restrita, candidatos precisam formatar seus currículos e cartas de apresentação de maneira específica e incluir palavras-chave que combinem com o que o sistema espera.
O problema é que essa premissa nem sempre corresponde à realidade. A classificação automática realmente ocorre em algumas organizações, mas em outras, o processo de contratação ainda é gerido inteiramente por seres humanos, do início ao fim.
Daniel Chait, executivo-chefe de uma empresa de sistemas de rastreamento chamada Greenhouse, afirma que existem muitos mitos sobre essas ferramentas, especialmente do lado dos candidatos. Não existem dois sistemas iguais, a tecnologia muda rapidamente e nem todos os produtos utilizam inteligência artificial, dependendo das funcionalidades contratadas.
Em uma economia de poucas demissões e poucas contratações, a situação piora ainda mais. As vagas disponíveis são escassas, e fraudes e anúncios falsos se tornaram problemas significativos em vários estados.
Candidatos e empregadores relatam uma quebra de confiança mútua. Enquanto candidatos investem muito tempo em suas buscas sem receber retorno, alguns empregadores recebem centenas de inscrições praticamente idênticas, o que os leva a alimentá-las em sistemas de classificação por inteligência artificial para tentar diferenciá-las.
Chait alerta que estamos presos a um ciclo vicioso. "Estamos diante de uma situação trágica em que cada lado tem um problema. Ambos usam inteligência artificial para resolver suas próprias dificuldades, mas de formas que pioram tudo. O resultado é que mais uso de inteligência artificial gera ainda mais uso, sem benefício para ninguém. Quanto mais isso acontece, pior fica."
Kim Jones, vice-presidente de recursos humanos da Toshiba, garante que sua empresa revisa manualmente cada inscrição. Ela não se importa que candidatos usem inteligência artificial para aprimorar seus materiais, mas reconhece que isso não ajuda necessariamente a passar pelos sistemas de rastreamento. O que ela realmente percebe são candidatos usando inteligência artificial durante as entrevistas, com respostas longas e atrasadas que revelam o uso da tecnologia.
A empresa Doist, que trabalha de forma totalmente remota e contrata internacionalmente, também depende mais de seres humanos do que de tecnologia. Nadia Vatalidis, responsável pelo setor de pessoas da empresa, relata que testaram se as classificações do sistema poderiam ajudar. Analisaram vagas já preenchidas e descobriram que, em dois casos testados, a pessoa contratada não estaria na lista de melhores classificada pela inteligência artificial.
James Jacobsen, profissional de design que buscava emprego há cinco meses, decidiu usar a inteligência artificial de maneira diferente. Enquanto tentava usar ferramentas para polir seus materiais de inscrição sem resultado, passou a utilizá-las para rastrear e organizar toda a sua busca de emprego. Criou um sistema complexo de pontuação baseado no tipo de trabalho, nível de experiência e requisitos salariais. Mesmo assim, conseguiu algumas respostas positivas, mas nenhuma oferta de emprego.
Para Chait, candidatos como Jacobsen estão se perguntando como podem investir ainda mais esforço. "Fazer mais do mesmo não é a solução", afirma. "Essa é a primeira vez que me lembro em que ambos os lados estão insatisfeitos. Simplemente não está funcionando."
Entre os conselhos para quem busca emprego estão: pesquisar empresas onde realmente gostaria de trabalhar, mesmo que não sejam nomes conhecidos, e considerar escrever uma carta de apresentação, algo cada vez mais raro que pode fazer o candidato se destacar. O networking também permanece uma habilidade subestimada no mercado atual.
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