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Aparelho dobrável de luxo da Vertu cobra 6.880 dólares por agente de inteligência artificial para executivos — e o resultado não corresponde à promessa

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Image Credits:Jagmeet Singh / TechCrunch — Fonte: TechCrunch
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A corrida para incorporar inteligência artificial nos smartphones domina o setor, com fabricantes disputando a atenção do consumidor comum. A Vertu, porém, decidiu trilhar um caminho diferente. Fundada no Reino Unido e famosa por aparelhos artesanais que facilmente ultrapassam os cinco dígitos em dólares, a marca vende status em vez de especificações técnicas. Seu mais recente lançamento, o Alphafold, é um telefone dobrável voltado para clientes endinheirados — em especial presidentes e diretores de empresas — que une materiais nobres a um agente de inteligência artificial capaz, ao menos no papel, de automatizar parcelas inteiras da rotina de trabalho.

No centro do Alphafold está o Hermes Agent, um assistente pré-instalado construído sobre o projeto de código aberto chamado Hermes. Segundo a Vertu, a ferramenta é capaz de analisar arquivos, automatizar ações em diferentes aplicativos, lembrar de conversas e, quando necessário, transferir solicitações para um atendente humano dedicado. Diferentemente da maioria dos assistentes de celular, que basicamente respondem a comandos, o Hermes foi pensado para executar fluxos de trabalho completos em nome do usuário, transformando-se no principal argumento de venda do produto — mais até do que o próprio hardware.

No aspecto físico, o Alphafold cumpre o que promete. A unidade avaliada vinha revestida em couro legítimo de bezerro, com detalhes em titânio, destoando dos acabamentos em vidro ou materiais sintéticos comuns em dobráveis. Comparado ao Galaxy Z Fold 7, usado como referência ao longo do teste, os 264 gramas do aparelho da Vertu se fazem notar bem mais que os 215 gramas do concorrente da Samsung durante o uso prolongado, embora nunca cheguem a ser incômodos. A moldura curvada também facilita a abertura, enquanto o design mais plano da Samsung agrada mais quando o telefone está fechado. A embalagem, por sua vez, lembra mais uma caixa de joias do que a caixa de um celular, com gavetas organizadas que guardam capinha de couro e cabos de carregamento — um reforço claro de que o produto quer ser visto como experiência de luxo.

Por trás do acabamento premium, porém, o Alphafold guarda surpresas menos nobres. Durante a análise, ficaram evidentes semelhanças marcantes com o ZTE Nubia Fold, vendido por cerca de 1.100 dólares: da dobradiça às dimensões, passando pela posição de alto-falantes, microfones e leitor de digitais, tudo é praticamente idêntico. A diferença mais visível mesmo é o painel traseiro de couro da Vertu. Identificadores da ZTE também apareceram em trechos do software. Procurada, a Vertu confirmou que o aparelho foi desenvolvido por meio de uma parceria de cadeia de suprimentos envolvendo a plataforma de hardware, a integração de componentes e a engenharia de produção da ZTE e da Nubia, embora afirme ser responsável pelos materiais nobres, pela experiência de software, pelo controle de qualidade e pelo pós-venda. A ZTE não respondeu aos pedidos de comentário. Não é a primeira vez: em 2023, uma análise da revista Wired sobre o MetaVertu já havia apontado hardware semelhante ao de um aparelho da Nubia, e pesquisadores da consultoria Counterpoint afirmaram que a Vertu costuma adaptar modelos da ZTE com materiais de luxo e software personalizado.

Focar apenas no hardware, no entanto, escapa o que o Alphafold realmente propõe. A grande aposta da Vertu não está em construir um dobrável melhor, e sim em saber se executivos estão dispostos a pagar caro por um agente de inteligência artificial que torne o dia de trabalho mais produtivo. Durante vários dias, o aparelho foi usado como smartphone principal em cenários típicos de gestão: análise de planilhas e contratos, planejamento de viagens corporativas, gestão de agenda e automatização de ações em diversos aplicativos, sempre comparando o desempenho com o Gemini, da Google, rodando no Galaxy Z Fold 7.

No primeiro teste, simulou-se uma situação comum antes de seguir para o aeroporto: pedir ao agente que avisasse um contato sobre um atraso de 20 minutos, abrisse a rota até o terminal, ativasse o modo não perturbe e criasse um lembrete para ligar ao hotel em 15 minutos. O Hermes enviou a mensagem, ativou o modo silencioso e abriu o mapa com a rota, mas não iniciou a navegação e criou o lembrete para as 21h08, mesmo tendo recebido o pedido às 2h32 da manhã. O Gemini, no aparelho da Samsung, preferiu fazer perguntas de confirmação — qual aeroporto e em qual aplicativo criar o lembrete — para então executar tudo no horário correto. O Hermes foi mais ágil e autônomo; o Gemini foi mais preciso.

O segundo teste envolveu planejar uma viagem de negócios entre duas cidades indianas, com voo matinal, sugestão de hotel e inclusão no calendário. O Hermes informou que não havia voos diretos no horário pedido e ofereceu um botão para transferir a solicitação ao serviço de concierge, além de criar o compromisso no calendário para a data errada — em vez de 18 e 19 de julho, marcou 7 de julho. O Gemini, diante da mesma indisponibilidade, continuou o planejamento sugerindo rotas alternativas em vez de simplesmente desistir.

Na análise de documentos, o cenário também se mostrou misto. Em uma primeira rodada, o Hermes analisou corretamente uma planilha de vendas enviada e resumiu os números do segundo trimestre. Dias depois, porém, ao retomar a conversa, não reconheceu mais o arquivo e pediu que fosse enviado novamente. O Gemini exigiu o envio inicial, mas manteve o contexto da conversa e, dias depois, continuou respondendo perguntas sobre o documento sem precisar de novo upload. No conjunto, o Hermes parece um assistente ambicioso, mas ainda em construção: a autonomia maior frequentemente resulta em fluxos incompletos, respostas incorretas e comportamento inconsistente. A velocidade das atualizações durante o período de testes sugere que a Vertu está ajustando a plataforma ativamente, o que significa que a experiência de compra daqui a alguns meses pode ser outra.

Além das funções gerais, a Vertu construiu em torno do Hermes uma coleção de agentes especializados para profissionais de alta renda, com versões dedicadas a orientações jurídicas e análises de investimentos, além da opção de escalar pedidos sensíveis para um atendente humano. A proposta é transformar o Alphafold em mais do que um smartphone caro, posicionando-o como assistente digital do executivo. Na prática, porém, esses agentes devem ser encarados como pontos de partida, e não como consultores definitivos: os textos continuam sendo gerados por inteligência artificial e precisam ser verificados antes de sustentar decisões jurídicas, financeiras ou estratégicas. A existência do serviço de concierge, aliás, reforça justamente os limites atuais da tecnologia — a expertise humana ainda faz diferença.

Para o público-alvo, segurança pesa tanto quanto a inteligência artificial. Nenhum executivo vai querer que um assistente analise contratos, relatórios financeiros e planos de negócio sem saber onde esses dados são processados. A Vertu afirma que as conversas com o Hermes são criptografadas e não alimentam modelos públicos de inteligência artificial, e que usuários podem escolher onde os dados ficam armazenados, com suporte a infraestruturas privadas para empresas que exigem mais controle. A empresa ainda destaca a presença de um chip dedicado de segurança batizado de A5, que ofereceria proteção em nível de hardware para dados sensíveis, comunicações e credenciais digitais. Essas garantias não puderam ser verificadas de forma independente durante a análise, mas estão no centro da proposta para executivos e grandes corporações.

No uso cotidiano, longe da inteligência artificial, o Alphafold se comporta como qualquer dobrável moderno: a bateria aguentou tranquilamente mais de um dia longe da tomada. Chamou a atenção, porém, a ausência de carregamento sem fio — uma omissão estranha nessa faixa de preço, principalmente diante de um rival que já oferece carregamento por indução e por cabo. O aplicativo de câmera inclui um modo de digitalização de documentos em um menu de recursos inteligentes, capaz de reconhecer textos em papel e salvá-los com ajustes automáticos, útil para guardar contratos e recibos, mas o recurso também está presente em rivais, funcionando mais como paridade do que como diferencial.

No fim das contas, o Alphafold é uma tentativa ambiciosa de criar um smartphone de luxo centrado em inteligência artificial, mas a execução não corresponde ao preço cobrado. Apesar dos materiais nobres e dos serviços exclusivos, o hardware em si oferece pouco que não se encontre em dobráveis bem mais baratos, enquanto o Hermes Agent continua sendo uma plataforma em evolução, e não um motivo convincente para gastar milhares de dólares a mais. No fundo, a Vertu pede ao comprador que pague um prêmio elevado por marca, acabamento artesanal e um ecossistema de inteligência artificial e concierge construído sobre uma plataforma já estabelecida. Pelos testes realizados, esse prêmio é difícil de justificar, ainda mais considerando que o Samsung Galaxy Z Fold 7 entrega uma experiência dobrável mais madura e funcionalidade equivalente no dia a dia por uma fração do preço. Com a próxima geração da Samsung prevista para chegar em breve, a equação de valor do Alphafold tende a ficar ainda mais complicada.

Fonte: TechCrunch

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