Uma operação de compra e análise laboratorial realizada pela equipe de investigação Consumer Reports descobriu que frascos de peptídeos comercializados em estabelecimentos comerciais de bairro em Nova York não continham os ingredientes ativos anunciados em seus rótulos. Os produtos, adquiridos em umamercearia tradicional no bairro de Bedford Avenue, em Brooklyn, foram enviados para análise em um laboratório independente especializado em testes de substâncias.
Pelo valor de aproximadamente três mil e setecentos reais, foram adquiridos quatro tipos diferentes de peptídeos: PT-141, prometido para aumentar a libido; BPC-157, divulgado para cura de lesões e recuperação muscular; NAD+, apresentado como agente de reparo celular; e retatrutida, anunciado para perda de peso. Os frascos foram adquiridos de um fornecedor chamado INDR Labs e entregues ao cliente em um saco de papel sem identificação.
Os resultados dos testes, recebidos semanas depois, trouxeram más notícias para os consumidores. As amostras continham níveis baixos de metais pesados e endotoxinas, o que significa que provavelmente não causariam danos imediatos, porém não continham nenhum dos ingredientes ativos anunciados. O BPC-157, por exemplo, não apresentava vestígios da substância em sua composição. Segundo Marco Krause, diretor executivo do laboratório responsável pelas análises, o teste realizado consiste apenas em uma verificação deClaims de rótulo, comparando o conteúdo com os padrões esperados.
Os peptídeos têm experimentado um aumento significativo na procura nos últimos anos, impulsionados por recomendações de figuras influentes como o Secretário de Saúde dos Estados Unidos e comunicadores de podcasts conhecidos. Embora algumas dessas substâncias sejam medicamentos farmacêuticos autorizados, muitos dos peptídeos mais comentados não passaram pelo processo regulatório típico exigido para aprovação de medicamentos. Apesar da popularidade, não há evidências científicas sólidas sobre muitos dos benefícios prometidos.
De acordo com Raphaël Mazoyer, diretor executivo da empresa de testes Finnrick, as amostras analisadas parecem ser simplesmente "produtos ineficazes". Ele relata ter observado um aumento nesse tipo de resultado nos últimos três meses. Mazoyer aponta para a popularidade de serviços que permitem praticamente qualquer pessoa abrir um negócio de venda de peptídeos, e alerta que muitos desses fornecedores podem utilizar os mesmos distribuidores de baixa qualidade.
Jeff Colhoun, fundador de um diretório de fornecedores de peptídeos para pesquisa, também realizou testes independentes com produtos adquiridos em outra loja da região e obteve resultados semelhantes. O laboratório responsável não conseguiu identificar positivamente as substâncias contidas nos frascos, sugerindo possível contaminação ou degradação dos produtos.
A INDR Labs não respondeu aos pedidos de esclarecimento feitos pela equipe de investigação, porém restringiu o acesso ao seu site logo após o primeiro contato. Relatórios anteriores indicaram que a empresa fornecia certificados de análise que foram contestados por um laboratório mencionado como emissor.
Especialistas alertam para os perigos desse mercado desregulamentado. Um advogado especializado em conformidade regulatória farmacêutica destacou que, enquanto a indústria farmacêutica tradicional toma medidas rigorosas para garantir a precisão e segurança dos produtos, desde inspeções visuais até sistemas de código de barras, vendedores em estabelecimentos de bairro não possuem conhecimento ou recursos para garantir a qualidade do que vendem.
A FDA, agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, confirmou que tem alertado empresas que vendem produtos rotulados apenas para "uso em pesquisa" quando são comercializados diretamente para consumidores. Um caso trágico ilustra os riscos: uma mulher morreu neste ano após receber uma injeção de peptídeo em um spa médico sem licença no Bronx.
O mercado de peptídeos é estimado em até três bilhões de dólares, segundo análises do setor financeiro. Embora a FDA tenha tomado algumas medidas de fiscalização, incluindo o caso de um homem condenado a seis anos de prisão por vender peptídeos importados ilegalmente da China e adulterados com esteroides, a aplicação das regulamentações permanece branda, facilitando a compra desses produtos tanto online quanto em estabelecimentos físicos.
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