A próxima grande disputa do mercado de telefones inteligentes pode não estar no aparelho em si, mas na forma como ele chega às mãos do consumidor. Com os modelos topo de linha cada vez mais caros, gigantes do setor como Apple e Samsung apostam que programas de aluguel, assinatura e recompra garantida podem tornar a troca por um dispositivo novo muito mais atrativa.
Nesta semana, a Apple deu um passo importante nessa direção ao lançar, nos Estados Unidos, o programa chamado Apple Upgrade, em parceria com a empresa de pagamentos Klarna. A iniciativa permite ao consumidor alugar um iPhone, Mac, iPad ou Apple Watch mediante o pagamento de uma mensalidade, com a possibilidade de trocar o aparelho, devolvê-lo ou, ao final do contrato, adquiri-lo de forma definitiva. Em uma chamada de resultados realizada na quinta-feira, o diretor-presidente da empresa, Tim Cook, explicou que o objetivo é facilitar o acesso dos clientes aos lançamentos mais recentes, especialmente daqueles que costumam renovar o dispositivo com regularidade. Cook também destacou que os altos valores de revenda dos produtos da marca contribuem para a viabilidade do modelo.
Do outro lado do mundo, a Samsung já vinha testando estratégia parecida por meio do Galaxy Forever, disponível na Índia, que une financiamento e recompra garantida para permitir a troca dos modelos premium da linha Galaxy de maneira mais previsível. Os dois movimentos revelam uma mudança silenciosa em um mercado pressionado pelo aumento dos preços e pela redução no ritmo de trocas por parte dos usuários.
Dados do setor apontam que o consumidor está segurando seu telefone por mais tempo. A empresa de análise Counterpoint Research projeta que o ciclo médio global de substituição de aparelhos atinja quatro anos em 2026, contra três anos e meio registrados em 2025. Nos Estados Unidos, de acordo com a IDC, quem possui um smartphone premium costuma mantê-lo em uso por cerca de 42 meses, número que saltou de 38 a 40 meses nos levantamentos anteriores. O cenário preocupa fabricantes, que veem menos oportunidades de vender novos dispositivos e um menor volume de aparelhos chegando ao mercado de seminovos e recondicionados, que vive um momento de forte expansão.
Para o analista Max Weinbach, da Creative Strategies, esse tipo de iniciativa só funciona se existir um mercado secundário forte. Segundo ele, o aluguel e a recompra garantida são justamente os mecanismos que alimentam a entrada de aparelhos usados no ciclo de recondicionamento. A questão, no entanto, vai além de convencer o consumidor a trocar de telefone com mais frequência: é preciso mostrar que esses novos modelos de posse fazem mais sentido financeiro do que a compra tradicional.
Matt Schulz, analista-chefe de finanças do consumidor no portal de empréstimos LendingTree, afirma que o aluguel não é para todos, mas pode compensar para quem costuma trocar de aparelho com frequência. Quem prefere usar o mesmo dispositivo por três, quatro ou até cinco anos, segundo ele, geralmente sai ganhando ao comprar o produto de uma vez. Já para quem renova o telefone a cada um ou dois anos, a conta pode ficar mais apertada do que parece. Weinbach reforça que o Apple Upgrade é, antes de tudo, um programa de troca disfarçado de aluguel, já que a proposta é que o cliente devolva o aparelho entre 12 e 36 meses para substituí-lo por um modelo mais recente. Em algumas situações, sobretudo em versões com maior capacidade de armazenamento, o consumidor pode acabar gastando o mesmo ou até menos do que pagaria comprando direto e usando os programas tradicionais de troca.
As fabricantes, no entanto, não enxergam esses modelos apenas como uma forma de baratear o acesso aos aparelhos premium. Para Navkendar Singh, vice-presidente de pesquisa em dispositivos da IDC, o verdadeiro objetivo é proteger margens e fidelizar clientes em um cenário de preços cada vez mais altos e ciclos de troca mais longos. A ideia é transformar uma compra elevada e pontual em parcelas mensais previsíveis, mantendo o consumidor preso ao ecossistema da marca.
A prática de pagar mensalmente por um smartphone não é novidade, sobretudo nos Estados Unidos, onde as operadoras oferecem há anos planos de financiamento vinculados a contratos de serviço. O que muda agora é a tentativa das fabricantes de assumirem o controle dessa relação diretamente com o cliente, sem depender das operadoras. Para Nabila Popal, diretora de pesquisa da IDC, o que tornou os preços médios de smartphones nos Estados Unidos os mais altos do mundo foram justamente os financiamentos sem juros em até 36 meses e os programas agressivos de troca, com descontos que podem chegar a 1.100 dólares. Essa engrenagem ajudou Apple e Samsung a dominarem o mercado norte-americano, onde as duas marcas somam mais de 80% de participação.
A migração para modelos de assinatura também abre espaço para empresas menores. Na Índia, a startup BytePe revelou que mais de 80% dos seus clientes optam por planos de assinatura em vez da compra à vista ou do parcelamento tradicional. O fundador e diretor-presidente, Jayant Jha, contou que o público típico da empresa é formado por jovens profissionais em início de carreira, que querem ter acesso a aparelhos premium sem desembolso inicial elevado e sem o compromisso de manter o dispositivo por muitos anos.
O fenômeno ultrapassa as fronteiras dos Estados Unidos e da Índia. Empresas como a britânica Raylo e a alemã Grover construíram seus negócios em torno do aluguel de smartphones e outros eletrônicos por meio de assinaturas mensais, e analistas preveem a chegada de novas iniciativas do tipo. Para Tarun Pathak, diretor de pesquisa da Counterpoint Research, a principal meta das fabricantes é ampliar o valor total de cada cliente ao longo do tempo, garantindo retenção, criando ciclos de troca previsíveis e abastecendo a cadeia de recondicionamento certificado. Ainda assim, Pathak acredita que o financiamento continuará sendo a ferramenta mais importante para ampliar o acesso a aparelhos premium.
A compra definitiva, porém, está longe de deixar de existir. Mandeep Manocha, cofundador e diretor-presidente da plataforma indiana de troca e recondicionamento Cashify, defende que aluguel, assinatura e compra tradicional vão conviver, e não se substituir. Segundo ele, pode haver uma transição natural da posse total para o aluguel, mas o processo será longo, algo ainda mais evidente nos Estados Unidos, onde o financiamento oferecido pelas operadoras segue dominante. Popal, da IDC, avalia que o Apple Upgrade pode ter impacto mais significativo nas vendas de Macs do que nas de iPhones, já que, para o consumidor norte-americano, o programa tende a ampliar as opções de financiamento mais do que transformar a forma de comprar smartphones.
Fonte: TechCrunch
